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Junta de Freguesia de Espinhel
Freguesia de Espinhel  |  Localização  |  Historial  |  Património   |  Colectividades   
 


A Geologia de Espinhel

- Uma mostra de geologia nacional e da dinâmica da Terra -

- Maciço Hespérico
- Orlas Mesozóicas
- Orlas Cenozóicas
- Inclinação dos Estratos
- Aproveitamento da Geologia Local

A freguesia de Espinhel, do ponto de vista geológico, apresenta as três unidades geológicas fundamentais presentes na Península Ibérica. Tais unidades são: o Maciço Hespérico, as Orlas Mesozóicas e a Cobertura Cenozóica.

 

- Maciço Hespérico      
Como rocha mais antiga na freguesia, pertencente ao Maciço Hespérico, encontra-se em alguns locais do subsolo o “Complexo xistograuváquico” (com mais de 500 milhões de anos). É formado por intercalações de xisto, arenitos e conglomerados metamorfizados (os grauvaques).

Figura 1 - Xistos do Complexo xistograuváquico.

Todas as rochas mais recentes presentes na freguesia são formada a partir de sedimentos, seu transporte, deposição e diagénese. Em diferentes ambientes sedimentares.

 

- Orlas Mesozóicas      
Pertencente à Orla Mezosóica, assentam em discordância com os xistos as rochas sedimentares do Triássico Superior (213 M.a. a 219 M.a.), compostas por arenitos e argilitos de tons vinhosos com grande compactação e sedimentos do Cretácio (100 M.a. aos 65 M.a.), constituídos por arenitos de granulometria variada com leitos de argila.

O Triássico Superior é formado pelos “Arenitos de Eirol”, que se dispões numa estreita faixa, que circunda os vales dos rios Vouga e Águeda e encontra-se particularmente desenvolvido na região de Eirol. Na freguesia de Espinhel constitui os estratos observáveis na estrada de Óis da Ribeira para Espinhel e na estrada de Travassô para Oronhe, que ladeia a linha do comboio. Na sua coloração predominam os tons vinhosos e púrpura, mas algumas camadas apresentam coloração amarela, esverdeada, acinzentada ou mesmo negra.

Figura 2- “Arenitos de Eirol” observados na rua do Serpel, em Espinhel.

Como se formaram estas rochas?
Para o bordo de um mar interior da Laurásia foram transportados sedimentos. O clima era tropical, com temperaturas elevadas e uma estação de chuvas abundantes e outra seca. Estes depósitos ter-se-ão formado durante chuvas torrenciais e terão sofrido desidratação durante os períodos secos e quentes, o que favoreceu a oxidação de certos elementos minerais, como o ferro e o manganês, que se encontram hoje com cor negra. Actualmente, por exposição ao ar, esta rocha apresenta coloração vinhosa.

O “Grés do cretácico” apresenta também tons vinhosos nas superfícies expostas, nomeadamente, nas barreiras de estrada, mas quando escavado revela tons cinza, rosa e castanhos. Pode ser encontrado na estrada do Serpel, junto ao campo de futebol, na barreira de estrada da Piedade para Perrães e nas barreiras junto ao caminho-de-ferro em Oronhe. Têm uma compactação reduzida, quando comparado com os sedimentos do Triássico. Para retirar sedimentos do Triássico é necessário martelo, já para os do Cretácico é possível extrair alguns com a mão. Os sedimentos são da dimensão das areias com alguma argila e areão, o que leva a considerar que tiveram pouca duração de transporte. Nos estratos destes sedimentos é possível observar marca de canais divagantes e variação na energia de transporte, pois há estratos com granulometria variada.

Figura 3- Afloramento com sedimentos do Cretácico, junto ao campo de futebol de Espinhel.

Em que condições se depositaram estes sedimentos?
Com o afastamento da América e o crescimento do Oceano Atlântico (de 144 a 66 M.a), mais bordo continental da Península Ibérica fica emerso. Para os novos bordos continentais foram transportados sedimentos, pelos rios que ao definindo os seus vales originaram depósitos aluvionares na zona da foz. Os arenitos do cretácico em Espinhel foram resultado de depósitos da zona de foz de um rio.

 

- Orlas Cenozóicas      
A Cobertura Cenozóica encontra-se sobre os sedimentos do Triássico e Cretácico. Tem cor clara com tonalidades de amarelo-dourado (são os “Depósitos de Cascalheira”) e branco-sujo (os “Terraços Fluviais”, que não de encontra presentes em Espinhel) e datam do Pleistocénico (1,6 M.a. a 0,01 M.a.).

Os “Depósitos de Cascalheira” originam relevos bastante planos e constituem depósitos superficiais que deram origem a bons campos agrícolas. São constituídos por leitos de areia e cascalheira, em que os sedimentos têm rolamento quase sempre acentuado, mesmo nos de pequenas dimensões. As areias variam de finas a grosseiras e podem ser mais ou menos siltosas. Ocorrem com alguma frequência camadas argilosas com vários metros de espessura. Na estrada do Serpel, em Espinhel estes depósitos foram explorados para extracção de saibros e areias e na estrada da Piedade para Recardães é feita separação de areias com eles.

Figura 4 – Cobertura cenozóica, na estrada do Serpel em Espinhel.

Figura 5 – “Depósitos de cascalheira”, em Paradela (à esquerda) e separação de areias a partir destes depósitos, na Piedade (à direita).

Em que condições se depositaram estes sedimentos?
A deposição destes sedimentos foi controlada essencialmente pelo nível médio da água do mar, que variou em função das glaciações. Tratam-se de areias formadas em zonas condicionadas por marés.

 

Inclinação dos Estratos      
Ao contemplarmos a paisagem junto à passagem de nível em Oronhe verificamos que Espinhel se situa num vale em V, este vale foi preenchido por cascalheira, mas como é mais friável está erodida. Porque temos então na estrada do Serpel, à mesma altitude, matérias com idades tão díspares? Voltando-nos para a barreira que se encontra junto ao local onde estamos a contemplar a paisagem verificamos que ela é um conjunto de grabens e horsts, ou seja, apresenta falhas que elevaram alguns terrenos e baixaram outros.



Figura 7- Uma das falhas visíveis junto ao caminho-de-ferro, em Oronhe.

Esta situação merecia um estudo científico de pormenor, pois estou convencida que o relevo desta freguesia se relaciona com um sistema de falhas, que permitiu o encaixamento do Rio Vouga e neste momento será influenciado pela subsidência dos sedimentos depositados na Pateira de Fermentelos e no leito do rio Vouga e Cértima.

Aproveitamento da geologia local      
Ao circular pela freguesia é frequente ver o aproveitamento da geologia local nas construções mais antigas. Há casa alicerçadas nas rochas aflorantes, algumas usam o “Arenito de Eirol” ou o “Grés do cretácico” como pedra de construção, outras foram feitas de adobes resultantes do aproveitamento dos “Depósitos de cascalheira”. É curioso ver também como os calhaus rolados, transportados actualmente pelos rios, foram aproveitados para auxiliar nas construções ou, actualmente, para adorno.


Figura 7- Construção de casa em cima de “Grés do cretácico” (à esquerda) e casa construída com a mesma rocha (à direita), em Casal de Álvaro .


Figura 8- Casas construídas com adobes (à esquerda) e com “Arenitos de Eirol” (à direita), na Piedade.

 


Figura 9- Os calhaus rolados foram utilizados na construção de casas antigas, em Casal de Álvaro (à esquerda) e actualmente são objectos de adorno, em Paradela (à direita).

Eunice Figueira, Mestrado em Geologia

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